sexta-feira, 1 de maio de 2009

1º de Maio na cidade 111 anos depois|



Camaradas*

Em nome da União dos Sindicatos do Norte Alentejano e da nossa Central – a CGTP-In, permitam que em primeiro lugar saúde todos os trabalhadores e em especial os desempregados, os homens, mulheres e jovens que, com convicção participam nas centenas de iniciativas com que assinalamos o Dia Internacional do Trabalhador.

Também aqui, de novo, homenageamos os obreiros e protagonistas dessa jornada de luta centenária pela redução do horário de trabalho e continuamos essa justa luta, pelos nossos direitos e por outro rumo para o nosso país com um futuro melhor para os trabalhadores e trabalhadoras da nossa região.

Este ano, aqui e agora, comemoramos o 35º aniversário do 25 de Abril que permitiu voltarmos a comemorar Maio em Liberdade, mas comemoramos igualmente o 111º aniversário da primeira manifestação de rua do 1º de Maio em Portalegre. Por isso, para homenagear os que há mais de um século saíram às ruas de Portalegre, exigindo a redução da jornada de trabalho, abrimos o nosso desfile com a faixa cujas reivindicações de há 111 anos atrás se mantém actualizadas.

Nessa altura exigia-se a jornada de trabalho de 8 horas diárias, hoje lutamos contra os que nos querem impor jornadas diárias de 12 e mais horas de trabalho.

Permitam-me um parêntesis para agradecer a participação, nessa homenagem, da Cooperativa Operária, que cumpre este ano 111 anos de vida e cujos fundadores desfilaram no 1º de Maio que aqui assinalamos e agradecer igualmente aos jovens da CRIARTE e à Dra Alexandra Janeiro que prepararam esta revisitação pelos trajos e motivações do operariado da época.

Obrigado Xana! Longa vida para a Cooperativa Operária cujos valores e objectivos ajudas a perpetuar.

Camaradas

O nosso distrito, como o país, vive hoje uma situação extremamente preocupante do ponto de vista económico e social.

A par das políticas prosseguidas por diferentes governos e que condenaram a nossa região à contínua perda de população e ao seu envelhecimento, à desertificação do território, ao definhar do seu tecido económico o distrito sofre agora os impactes da crise financeira e económica para onde o sistema capitalista lançou o país e as restantes nações ditas desenvolvidas.

O já débil tecido produtivo regional tem vindo a ser duramente fustigado e os trabalhadores e as populações obrigados a pagar o preço mais alto da crise para a qual não contribuíram nem dela lucraram: as falências, os encerramentos, as deslocalizações, as reduções de horário sucedem-se, o desemprego – flagelo de sempre na região – dispara para números insustentáveis.

Os casos da Robinson, da Lactogal e da Jonhson Control são ilustrativos.

No primeiro caso, a Robinson – cujos operários desfilaram em Portalegre há 111 anos, estiveram envolvidos na constituição da Cooperativa Operária e foram obreiros do crescimento da cidade e aqui estão hoje a exigir que não acabe a actividade corticeira em Portalegre.

A velhinha Robinson é o exemplo acabado da falta de vontade política e de oportunismo de quantos permitem que uma empresa centenária, com mercado, competências, encomendas e com óptimos trabalhadores, seja destruída depois de uma prolongada e violenta agonia.

Os dois outros casos são exemplo da gula do capital pois trata-se de duas empresas com mercado e com lucros cuja deslocalização se deve apenas à gula de obter ainda mais e mais lucros.

Algumas das empresas que aqui continuam recorrem crescentemente, e muitas vezes de forma oportunista, à suspensão de contratos, ou à redução dos tempos de trabalho reduzindo os salários e transferindo os encargos para a segurança social.

Em diferentes pontos do distrito reapareceram os salários em atraso – muitas vezes lado a lado com aberrantes formas de ostentação de novo-riquismo - e aumentam as dívidas à segurança social e ao fisco.

Sem procurar esconder a dimensão da crise para onde o sistema capitalista lançou o mundo, importa ter presente que a situação vivida no distrito e no país é, no fundamental, o resultado das politicas desenvolvidas por este e anteriores governos, que apostaram em modelos de desenvolvimento baseados em baixos salários e mão-de-obra desqualificada, na precarização e desvalorização do trabalho, na permissão quando não estímulo, de um brutal enriquecimento pessoal à custa da especulação financeira, da exploração dos trabalhadores, da corrupção e da fraude fiscal.

Na Região essa linha de actuação foi ainda agravada, quer pelas políticas de litoralização do investimento, da população e da riqueza quer pela actuação do governo e das suas estruturas descentralizadas.

Os exemplos que recentemente vieram a público, ocorridos em Castelo de Vide e na Segurança Social são ilustrativos.

No primeiro caso com as estruturas regionais do Ministério da Educação a utilizarem abusiva e ilegalmente imagens das crianças para o tempo de antena do partido socialista.

No segundo caso com os seus principais dirigentes envolvidos em praticas de coação psicológica visando pôr no desemprego trabalhadores dos seus quadros.

É incontornável a necessidade de o Estado assumir nas suas mãos as responsabilidades que lhe cabem, tomando as medidas e disponibilizando os recursos necessários para que se possa pôr um travão ao agravamento das condições de vida da população e para criar as condições que permitam o crescimento económico e uma justa repartição da riqueza produzida.

Agora, mais do que nunca, é necessário:
• Garantir o emprego, defender os direitos dos trabalhadores, dos desempregados e dos pensionistas e aumentar o poder de compra regional;

• Dinamizar a actividade económica e apoiar as micro, pequenas e médias empresas da região;

• Canalizar parte do investimento público anunciado para garantir o compromisso de que nenhuma cidade capital de distrito fique sem ligação à auto-estrada e, nos que nos toca, garantir que essa ligação não se faça em sobreposição a outras vias existentes mas sim, permitindo o acesso fácil entre o norte e o sul do distrito, ligando a Beira Interior e Extremadura espanhola;

• Criando uma estrutura de acompanhamento da situação económica e social da região e de monitorização dos investimentos e apoios públicos à região e aos seus agentes;

O Movimento Sindical da região não quer e não vai ficar de fora do esforço que também nós, ao nível local, temos que realizar e por isso lança o desafio de que se avance de imediato para a construção de ferramentas que disponibilizem, agilizem e potenciem o investimento a canalizar para o distrito e que pode seguir, ou não, o figurino de uma OID – Operação Integrada de Desenvolvimento – de carácter urgente e alicerçada num Pacto Regional para o Emprego e o Desenvolvimento, onde caibam o Poder Central e Local, as Associações Empresariais e os Sindicatos.

Camaradas,

As dificuldades são imensas mas não são maiores que a nossa esperança e a nossa confiança em construirmos um futuro melhor e por isso, queremos contribuir com o nosso empenho e acção para uma efectiva mudança de rumo que garanta aos trabalhadores e em particular aos jovens, o direito de viver com dignidade no nosso distrito.

É por essa vontade que reafirmamos o apelo, aos trabalhadores e às suas famílias, para que nos próximos actos eleitorais, para o Parlamento Europeu, para a Assembleia da Republica e para as Autarquias Locais, no acto de votar, tenham presentes os seus e nossos objectivos e lutas para que, também com o seu voto, contribuam para a construção de uma sociedade melhor para todos.
Em nome do Conselho Nacional da CGTP e da Direcção da USNA reafirmamos o nosso compromisso de prosseguirmos uma acção sindical que contribua para fortalecer o Movimento Sindical Unitário, pela Mudança de Rumo com mais emprego com direitos, melhores salários e mais dignidade para os trabalhadores.

Este é o caminho que temos que prosseguir, cimentando a unidade na acção e os laços de solidariedade entre as várias gerações de trabalhadores das diversas regiões, das múltiplas profissões e dos diversos sectores de actividade.


Este 1º de Maio que também é de festa e de confraternização vai ser continuado nas dezenas de convívios e festas organizadas por diferentes associações por todo o distrito e das quais queremos referir: o 1º Festival de Música do Bairro dos Covões e o convívio do Centro Popular do Bairro de S. Cristóvão, na cidade de Portalegre; a festa que ligará o 25 de Abril ao 1º de Maio em Assumar; os convívios-festa em Foros do Arrão e Tramaga no concelho de Ponte de Sôr; as festas em Avis e na Aldeia Velha e o convívio em Montalvão – Nisa.

Para todos quantos nestes e noutros locais vão continuar a festejar Maio o nosso abraço solidário.

Para todos os que em Portugal e no mundo comemoram o Dia Internacional do Trabalhador a certeza de que também aqui se mantém vivos os ideais dos mártires de Chicago.

Para quantos aqui estamos, para quantos continuam a acreditar que este distrito tem futuro, a certeza de que voltaremos a encontrar-nos muito em breve, na próxima luta.

Viva o 1º de Maio
Viva a USNA/cgtp-in
Vivam os Trabalhadores do Norte Alentejano!
* Intervenção do Coordenador da USNA/cgtp-in

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