quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Trabalho escravo (de novo) no Alentejo?



Durante um interrogatório realizado no Tribunal de Serpa, no passado dia 7, a oito cidadãos romenos que vinham acusados do crime de tráfico de pessoas, foram ouvidos vários trabalhadores sequestrados oriundos deste país do Leste europeu e um deles relatou ter perdido 23 quilos por força dos maus tratos que recebeu e da fome a que foi sujeito durante várias semanas.

"Estava um farrapo humano", descreveu uma das pessoas presentes na audição dos testemunhos que contribuíram para a prisão preventiva de quatro dos oito indivíduos detidos pela Polícia Judiciária em Aljustrel.

Este exemplo reflecte uma persistente realidade no dia-a-dia dos imigrantes romenos que rumam ao Alentejo no início do Outono, contratados por compatriotas seus para trabalhar durante dois ou três meses na apanha da azeitona. O seu número cresce de ano para ano, à medida que aumenta a produção nos novos olivais intensivos, assim como os casos de exploração de mão-de-obra, sem que as autoridades portuguesas se decidam a "recebê-los em condições dignas", protesta Sérgio Engana, presidente da Junta de Freguesia da Salvada no concelho de Beja. Há três anos a esta parte que se insurge contra a situação degradante de ver cidadãos romenos que chegam à sua terra a alimentarem-se do que é deitado nos contentores do lixo, enquanto outros se colocam à porta de estabelecimentos comerciais a pedir dinheiro para comprar pão.

Publicado por Carlos Dias no Jornal Público de 29-12-2012

 

     Foi contra este estado de coisas…contra a voragem capitalista, que os Sindicatos do Alentejo e da Extremadura montaram nos anos 90 uma acção sindical nos campos de Badajoz visando e conseguindo garantir condições dignas para os trabalhadores temporeros que anualmente cruzavam a (ainda) fronteira entre Portugal e Espanha para se ocuparem na apanha de tomate nas Bajas do Guadiana e na colheita de cereja no Vale de Jerte.
     Com a luta sindical conseguiram-se os apoios necessários a garantir aos “temporeros” locais de acolhimento com um mínimo de condições para eles e para as crianças que os acompanhavam.
      Na altura a CCDRA, a Junta de Extremadura, a Cruz Roja e outras organizações uniram-se aos Sindicatos no combate ao trabalho sem direitos, aos acampamentos debaixo das pontes, à exploração das crianças…a batalha foi vencida.
      Agora, em 2013 a mesma situação, desta vez no nosso território. Não podemos fingir que não sabemos. Importa combater (de novo) as máfias e quem com elas beneficia. É urgente garantir a todos e todas que no nosso território exercem uma actividade profissional as condições que exigimos para os autóctones. É fundamental garantir a todos e todas que estão no nosso território as condições de alojamento e habitação com um mínimo de dignidade.
      Os sindicatos do Alentejo estão, como sempre, disponíveis para travarem esse combate.
      Vamos a isso!