segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Urânio.- No Norte Alentejano, NÃO!


Tribuna e marcha contra exploração do urânio em Nisa

O Domingo 19 de Outubro de 2008 ficará na história de Nisa: realizou-se uma tribuna cívica seguida de uma grande marcha contra a exploração de urânio em Nisa.
Foi uma iniciativa que juntou um vasto leque de associações e instituições: Associação Comercial do Concelho de Nisa (Nisa.Com), Associação de Desenvolvimento Rural de Nisa (TERRA), Núcleo Regional de Portalegre da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, Associação para o Desenvolvimento de Nisa (ADN), Câmara Municipal de Nisa (CMN), Comissão dos Ex-Trabalhadores da Empresa Nacional de Urânio e Movimento Urânio em Nisa Não (MUNN).
Da parte da manhã decorreu a «Tribuna cívica». Contou com uma intervenção da Presidente do Município de Nisa, Gabriela Tsukamoto, que afirmou que a estratégia do desenvolvimento do Município assenta nos recursos como o queijo de Nisa (que foi classificado como um dos 100 melhores do mundo para acompanhar vinho) e as termas. Há cerca de 2 anos foram informados que havia intenção de explorar o urânio. Haveria uma 1ª fase de prospecção, seguida de uma 2ª de exploração a céu aberto. Devido à recusa do Município e à contestação conseguiu-se que o caderno de encargos esteja agora «pendurado» no Ministério da Economia. Acrescentou que os impactos de uma eventual exploração seriam globais, pois a poluição da exploração pode sair do concelho pelo ar e pela água, sendo que as águas vão para o rio Tejo. Já se conseguiu que neste momento, antes de haver uma exploração teria de haver uma avaliação ambiental estratégica.
O Professor Jorge Mendes, professor e investigador do Observatório do Risco do
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, comparou o processo da Urgeiriça em Portugal, com um da Empresa Cogema em França. A Cogema teve processos em tribunal, mas a questão dos trabalhadores em França não são visíveis como aqui. O caso das minas de urânio põe em questão os direitos de todos os portugueses, porque a opção nuclear e a exploração do urânio põe em risco todos. Para haver um mundo sustentável tem de haver direito à saúde e à informação. As opções a tomar têm de ser com base na confiança e a lógica da precaução assenta na igualdade e na democracia. Quando o Governador do Banco de Portugal diz que se tem de debater a questão nuclear então tem de se convocar todos os que foram afectados pela exploração do urânio.

A acusação

António Minhoto da Associação Ambiente em Zonas Uraníferas, leu o libelo acusatório. Acusou o Estado português pelas mais de 115 pessoas mortas na Urgeiriça. Acusou o Estado de cobrar pelos estudos à radioactividade que os compradores das casas vendidas pelo Estado têm de pagar. Acusou o Estado por não ter cuidado com a saúde dos trabalhadores, pois dos mais de 500 trabalhadores mais de 20% já faleceram com cancro, sendo a esperança de vida dos antigos trabalhadores entre os 50 e 60 anos de idade.
A Maria Adelina, viúva há 2 anos, disse que o marido trabalhou 20 anos nas minas da Urgeiriça com água até à cintura e nunca lhe davam um fato-macaco seco antes de regressar a casa. O marido morreu com 51 anos de idade deixando-a com dois filhos menores.
Diogo Serra, da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional, corroborou os anteriores participantes e disse que o Estado é culpado desta e de outras situações. Saudou os antigos trabalhadores que conseguiram pôr a questão na ordem do dia.
António Eloy, estudioso das questões do urânio há mais de 3 décadas, disse que se até aos anos 50 havia pouca informação, depois dessa data tal já não acontecia e por isso o Estado é culpado por não ter mudado de atitude. Os anos antes do 25 de Abril de 1974 foram negros quanto à saúde, higiene e segurança no trabalho pois os trabalhadores tinham poucos direitos, mas depois dessa data o Estado democrático deveria ter mudado. Ele próprio chamou a atenção em 1978 para os problemas e por isso o Estado não pode dizer que ignorava o problema.
Falaram ainda representantes do Partido Ecologista «Os Verdes», Partido Comunista Português e Bloco de Esquerda.

A Marcha contra a exploração do urânio

Cerca das 12h30 as cerca de 400 pessoas rumaram até ao local da antiga exploração de urânio que fica a 2,5km da vila do Alto Alentejo.
No local falaram representantes das organizações convocantes, bem como da Associação de Agricultores do Norte Alentejano, da espanhola Associación de Defensa de la Naturaleza de Extremadura (ADENEX) e da inglesa Amigos da Terra.
Todos consideraram que o urânio deveria permanecer enterrado e por isso colocaram-se simbolicamente cruzes no local.
O Estado português foi considerado culpado pelos problemas ambientais e de saúde decorrentes da exploração do urânio em Portugal.

José Janela

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